Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2008

Achados no baú (5)

 

Foi em Novembro de 1968 -  prefazem-se este ano 40 anos  - que passaram pela primeira vez para os estúdios, depois de uma gestação preparatória de um ano, os trabalhos verdadeiramente ciclópicos  (e que durariam até Junho de 1971)  da gravação de uma obra verdadeiramente invulgar em todo o jazz.

Escalator Over the Hill se chamou essa obra e na sua origem esteve a grande pianista, compositora e chefe de orquestra Carla Bley, nela participando ainda alguns dos músicos em destaque nessa época, para além de artistas de outras áreas que acompanharam a compositora no difícil parto de uma obra que, com todas as suas contradições, ouvida hoje, mantém o espírito de irreverência e transversalidade estética e cultural que sempre foi sua intenção primeira.

Há precisamente uma década, alinhavava este escriba para o DNMais, então suplemento musical do Diário de Notícias, o texto em que se destacava o surgimento da reedição de Escalator Over the Hill e que há dias fui achar, entre outras velharias, no meu baú.

Pensei que poderiam gostar de o conhecer ou reler. Ele aí está.

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As aventuras da bela Carla (1)

                                                       

Fruto de um aturado trabalho de criação individual e da expressão aleatória da invenção colectiva, Escalator Over The Hill constitui, ainda hoje, na sua grandiosidade e nas suas fraquezas, uma das obras mais ambiciosas e complexas no domínio do jazz.
 
Tudo começou em Janeiro de 67 quando o poeta Paul Haines, amigo pessoal de Carla Bley, lhe confiou o esboço de um surreal e impenetrável libreto, desafiando-a à composição de uma ópera. Nada melhor se adequaria à compositora, desde sempre ansiando alargar a sua criatividade muito para além das fronteiras estritas do jazz, através de uma série de experiências em vários campos que, no decorrer da sua movimentada carreira, tocariam a música para o teatro e cinema de vanguarda, a canção de texto, a própria música de câmara e, no domínio específico da música popular, certas formas e direcções mais avançadas do rock e da pop.
 
Além disso Carla era, desde a primeira hora, participante activa do movimento de renovação e reformulação do jazz que, na segunda metade dos anos 60, em plena efervescência do free-jazz, conhecera um ímpeto decisivo com a criação, por exemplo, da Jazz Composer’ s Orchestra –  que reunia no seu seio músicos tão importantes como Roswell Rudd, Charlie Haden, Don Cherry, Howard Johnson, Paul Motian, Perry Robinson, Dewey Redman, Gato Barbieri e tantos outros  – ou membro influente da Liberation Music Orchestra, esta dirigida por Charlie Haden.
 
Não admira, assim, que muitos dos músicos participantes desta longa obra de Carla Bley fossem oriundos das estantes destes dois relevantes colectivos. Mas as próprias paixões musicais da pianista e compositora, as muito diversificadas ligações aos meios artísticos da época, a par das inúmeras contrariedades, mudanças de rumo e outras incidências laterais que marcaram de forma significativa o trabalho criativo de Escalator Over The Hill, ajudam a explicar ainda algumas das presenças que, em diversas funções  (designadamente no campo vocal), podemos surpreender na «ficha técnica» que acompanha a obra.
 
Carla recusara sempre a hipótese de contar com a participação de cantores com os tiques da formação académica e, por isso, a par de uma única cantora lírica assumida (Rosalind Hupp), para um papel específico, as vontades e os acasos puseram-lhe à disposição as vozes de Jack Bruce (Cream), com uma notável intervenção, mas ainda as de Don Preston (Mothers of Invention), Linda Ronstadt ou Jeanne Lee, do actor-cantor britânico Paul Jones, para já não falar da participação nas partes corais do fotógrafo Tod Papageorge, dos tubistas Bob Stewart e Howard Johnson ou do contrabaixista Charlie Haden, da transformação do cineasta Michael Snow em... trompetista e da intervenção de Viva, super-star de Andy Wahrol, como narradora!
 
Sempre lutando contra a falta de fundos para a realização de uma obra tão exigente, contando em dezenas e dezenas de horas de trabalho voluntário com a colaboração desinteressada de muitos dos músicos envolvidos, Carla Bley teve de se sujeitar, durante os três longos
anos que ocupou o trabalho de gravação e pós-produção, às mais diversas condições técnicas: desde o amplo e sofisticado estúdio da RCA, apetrechado com máquinas de 16 pistas e possibilitando as complexas misturas finais, até à utilização de simples gravadores portáteis (!), passando pelas instalações  (para o efeito precárias)  da Cinemateca de Jonas Mekas ou do Public Theater de Nova Iorque, dirigido pelos seus amigos Joseph Papp e Bernard Gersten.
 
Não admira, assim, que as próprias condições materiais da produção e criação artística se reflictam no desigual resultado final, tocado pela qualidade superlativa de momentos-chave como Hotel Overture, Escalator Over The Hill  (propriamente dito), EOTH Theme, Off Premises ou Smalltown Agonist, pela (ainda)  ingenuidade «modernaça» da utilização primária de um piano preparado ou de um sintetizador, não deixando de ser sujeito à inevitabilidade dos ruídos de uma carruagem de metro...
 
Pelo meio, ficam ainda a marcar esta obra singular os dispersos mas inegáveis reflexos de Brecht, Mingus ou Rota na personalidade musical de Carla Bley, a par da influência dos movimentos de vanguarda em geral, expressão no campo artístico de outros interesses e paixões: as lutas contemporâneas pelos direitos cívicos dos afro-americanos, os gritos de revolta da América Latina ou a intervenção contestatária da intelectualidade universitária.
 
Enfim, a aventura de Escalator Over The Hill é bem o fruto de uma época bela e exaltante: o tempo de todas as esperanças e de todos os excessos.
                 

(1)  in DNMais nº. 29, de 10.10.98

  
Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 23:31
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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2007

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Domingo, 14 de Outubro de 2007

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